Um substituto para o maldito isopor
Liana John - 14/03/2013 às 12:58

Ao cruzar o
Oceano Atlântico, do Rio de Janeiro à ilha de Ascensão, durante 13 dias a bordo do veleiro
Sea Dragon, tínhamos a missão de catalogar todo
lixo avistado à superfície das ondas azuis. Além de recolher as mais variadas
partículas de plástico – boiando quase imperceptíveis, porém impactantes – capturamos dois ícones da
poluição marinha: um emaranhado de
rede de pesca feita de
nylon e um pedaço de
caixa de isopor.
É exatamente lá no
mar, assim como nos
rios e demais corpos d’água, que o isopor se transforma em
vilão. Quimicamente, é um material composto apenas por
carbono e
hidrogênio, dois elementos muitíssimo comuns, encontrados na maioria dos organismos, do nosso organismo inclusive. O que faz toda a diferença é como as
moléculas de carbono e hidrogênio são artificialmente ligadas, de uma forma extremamente
estável e
não degradável.
Mesmo quebrado ou desfeito em pedacinhos, o isopor continua boiando sem se degradar. A estimativa mais usada aponta uma
persistência no ambiente de
150 anos, mas tenho minhas dúvidas se é mesmo “só” isso. Para
golfinhos,
peixes,
tartarugas e outros animais, aquelas bolinhas flutuantes parecem apetitosas. São ingeridas sem cerimônia, mas não são digeridas. Então ficam lá, no sistema digestivo, ocupando cada vez mais espaço, junto com outros plásticos, até faltar lugar para a comida e o animal morrer de
inanição. Ou, se o pedaço é maiorzinho, capaz de parar logo no meio do caminho e matar por
asfixia. Em poucas e boas palavras, o isopor não deveria parar no mar, nunca.
Mas para manter uma cervejinha gelada, ou garantir o sanduíche quentinho, ou conservar o suco do bebê fresquinho, ou proteger medicamentos do calor excessivo, ou embalar produtos frágeis e centenas de outras utilidades mais, o isopor é fantástico. É por isso mesmo que precisamos de um
substituto mais ecológico para ele.
Um sério candidato na categoria
isolante térmico surgiu em uma feira de Ciências de
Ariquemes, em
Rondônia, e começa a ganhar estrada, com a exposição na Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (
Febrace), realizada na Universidade de São Paulo (
USP), nesta semana. Trata-se de uma
caixa térmica feita de
fibra de buriti e calafetada com a
seiva da própria
palmeira, cujo nome científico é
Mauritia flexuosa. O buriti, nunca é demais relembrar, é a palmeira-símbolo das veredas dos nossos sertões, sempre com o “pé” na água. É uma espécie abundante e muito produtiva, cujos frutos têm alto teor de
vitamina A e são aproveitados em doces e merendas escolares.
Há 4 anos, o estudante
Gustavo de Oliveira Bertão, então com 14 anos, fez uma caixa de fibra de buriti como projeto de Artes, na escola. Ele se inspirou nas
embalagens artesanais tradicionais, usadas para conservar o doce de buriti na região, mas o formato de sua caixa assemelhava-se ao de um recipiente de isopor. Os colegas começaram a brincar, perguntando se ele não ia colocar gelo. Curioso, ele resolveu testar e observou que o gelo se conservava por um bom tempo.
Já no curso técnico agropecuário de nível médio do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Rondônia (
IFRO), Gustavo (18 anos) montou um grupo de trabalho com
Wanderson Novais Pereira (17 anos) e
Lucas Pedro Cipriani (16 anos), sob a orientação das professoras de Química,
Márcia Bay, e Biologia,
Márcia Mendes de Lima, e com o apoio do professor de Sociologia,
Oniel Sampaio. “Construímos um protótipo de caixa térmica de fibra de buriti, com volume de 3 litros, usando o pecíolo da palmeira, que é a base da folha, e fixando com varetas da folha em lugar de prego. Ainda impermeabilizamos com a seiva do próprio buriti, quer dizer, toda caixa é feita exclusivamente de buriti e sem derrubar, sem prejudicar a palmeira, só retirando a folha que já está para cair”, resume Wanderson.
“Então fizemos quatro
testes com substâncias quentes e frias, durante duas horas”, prossegue Gustavo. O desempenho da caixa térmica foi comparado ao de uma caixa de isopor de mesmo tamanho. Em ambas as caixas foram colocados líquidos à mesma temperatura e o monitoramento foi realizado por meio de termômetros introduzidos em furos nas respectivas tampas, de modo a evitar a abertura das caixas e a interferência do ambiente externo na temperatura interna. O desempenho da caixa de buriti na
conservação do frio foi melhor do que o da caixa de isopor em um grau centígrado. E o desempenho na
conservação do calor foi equivalente.
Agora o plano dos jovens é investir na fabricação de
painéis a partir da mesma fibra de buriti, só que triturada. Assim a produção de caixas térmicas não fica restrita ao tamanho das placas que eles conseguem tirar dos pecíolos das folhas, cujo comprimento varia de meio metro a dois metros. O que falta, como sempre, é recurso para investir no projeto, que até agora só contou mesmo com o empenho e boa vontade dos três estudantes e seus professores. A expectativa é abrir algumas portas ao divulgar a promissora ideia nas feiras de Ciências, razão pela qual os três hoje (14/3/2013) estão em campanha, tentando obter uma boa votação
on line no júri popular da Febrace (http://febrace.org.br/virtual/bio/224).
Então, boa sorte com o projeto, Gustavo, Wanderson e Lucas! Torcemos em nome dos golfinhos, dos peixes e das tartarugas para essa substituição dar muito certo e aliviar rios e mares dos malditos isopores perdidos!
Fotos: Liana John (buriti, ao alto)
Gustavo Bertão e Wanderson Novais (caixa artesanal feita há 4 anos, à esq., e protótipo de 3 l, à dir.)
Fonte: Planetasustentável.abril.com.br